“Deus, oh Deus! Onde estás que não respondes?” (Castro
Alves)
“A fome é má conselheira” (Provérbio Português)
Em 18 de maio de 2013, aconteceu uma Audiência Pública da
Câmara Municipal de São Gonçalo, para se discutir a situação do possível
destombamento da área do 3º Batalhão de Infantaria, hoje sob domínio do Estado.
Um grupo de pessoas, inclusive eu, possuíam o objetivo de
mostrar que aquela área é solo sagrado em termos de história, de cultura e de
ecologia. E principalmente mostrar que há milhares de áreas, em São Gonçalo,
esperando uma ação dos governos para que casas possam ser construídas com
facilidade.
Deparei-me com duas situações inusitadas:
A primeira situação foi a presença do representante do
Governo do Estado, que fez uma breve apresentação, com o objetivo de convencer
os presentes de que os prédios que seriam conservados, bastariam para manter o
acervo arquitetônico e histórico. E que a montoeira de prédios a serem
construídos não trariam dano ao meio ambiente porque as áreas íngremes seriam
preservadas. Mostrou uma “planta” que me
lembrou aquelas plantas de condomínios, em que a Construtora promete três
andares de garagem, mas que acaba entregando uma garagem apertada num andar e
dois andares de lojas ou escritórios, fora do objetivo inicial. E quem quiser,
ganhe a vaga no sorteio ou pague, às ocultas, pela melhor. Os outros que se
lixem!
Não era uma questão de negociação. O plano estava traçado!
Falou em segurança, mas o que entende o governo do Estado,
do quesito segurança em nossa cidade? Será que ele não sabe onde estão os
evadidos das áreas Upepezadas? Se não há aumento de contingente policial em São
Gonçalo, como é que oferecem segurança? Não falam em quartel de PM, em
Delegacia, em Corpo de Bombeiros, em teatro, museu, escola, restaurante
popular, barcas para o Rio, estádio, Metrô...NADA!
Para São Gonçalo ficam presídios, lixões registrados como
aterros, ônibus caros, lotados e morosos, insegurança, postes apagados,
criminalidade, doenças e desabrigados. Muitos desabrigados. Desabrigados que
esperam uma solução dos governos há anos seguidos. Quem não conhece a história
sofrida de todos os que moram – ou moraram - nas áreas que foram alagadas?
Mal comparando, as pessoas desabrigadas das enchentes foram
tratadas com o mesmo descaso que a Praça do Alcântara, que a Fazenda Colubandê,
que a área do 3º BI... foram deixadas de lado, sem vez, sem voz, sem poderem se
utilizar do próprio direito. Diferentemente das áreas mal utilizadas ou
menosprezadas, o ser humano reage ao menosprezo quando percebe oportunidade.
Muito mais se vê uma nesga de chance de sair da situação da penúria. E como a
fome é má conselheira, porque leva o faminto a se exceder, a falta de
habitação, provocada por tantos anos, é má conselheira premeditadamente ao
dispor dos que precisam urgentemente habitar.
Daí surge a segunda situação. Com tanta terra que pode
servir para a construção de condomínios mais modestos em São Gonçalo, com tanta
possibilidade de se fazer obras nas áreas castigadas, como já fizeram em tantos
lugares nesse país – não esqueçam que Cubatão, hoje exemplo, já foi a cidade
mais poluída e sofrida deste Brasil – resolvem que o melhor é transformar uma
área de significativa importância num lugar que será brevemente esquecido pelas
autoridades. Garantem que a comunidade não terá bandidagem, que terá casa de
graça, área de lazer, biblioteca pública, saúde e tudo o mais. E quem não tem
com o quê se agarrar, se agarra com o que oferecem, mesmo que o CONAR não tenha
comprovação do teor da propaganda. Imagine finalmente poder morar. E morar de
graça. E morar pertinho de Niterói. É uma esperança eleitoreira, é obvio, mas é
a única que lhes deram até agora. E eu tenho solidariedade porque a dor que
sofrem é, no mínimo, dilacerante.
Política cruel que usa as necessidades do povo contra o
próprio povo. É por isso que não se deve estudar, não se deve ter cultura, não
se deve cultuar os bons exemplos, não se tem acesso a bons livros... bom mesmo
é bigui-bródi, violência, perseguição midiática à polícia que atua, SUS que não
atende, escolas que aprovam de qualquer maneira, direitos interpretados
unilateralmente pelo caos social. No fundo são as constatações de Maquiavel em
pele já surrada de cordeiro.
Mas como o “Mestre dos mestres” orientou a vigiar e orar,
vou fazendo ambos, esperando a resposta ao chamamento que, há muito, Castro
Alves formulou.
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