segunda-feira, 27 de maio de 2013

DA FRIGIDEIRA PARA O FOGO (Frederico Carvalho)

“Deus, oh Deus! Onde estás que não respondes?” (Castro Alves)

“A fome é má conselheira” (Provérbio Português)


     Em 18 de maio de 2013, aconteceu uma Audiência Pública da Câmara Municipal de São Gonçalo, para se discutir a situação do possível destombamento da área do 3º Batalhão de Infantaria, hoje sob domínio do Estado.

     Um grupo de pessoas, inclusive eu, possuíam o objetivo de mostrar que aquela área é solo sagrado em termos de história, de cultura e de ecologia. E principalmente mostrar que há milhares de áreas, em São Gonçalo, esperando uma ação dos governos para que casas possam ser construídas com facilidade.
Deparei-me com duas situações inusitadas:

     A primeira situação foi a presença do representante do Governo do Estado, que fez uma breve apresentação, com o objetivo de convencer os presentes de que os prédios que seriam conservados, bastariam para manter o acervo arquitetônico e histórico. E que a montoeira de prédios a serem construídos não trariam dano ao meio ambiente porque as áreas íngremes seriam preservadas.  Mostrou uma “planta” que me lembrou aquelas plantas de condomínios, em que a Construtora promete três andares de garagem, mas que acaba entregando uma garagem apertada num andar e dois andares de lojas ou escritórios, fora do objetivo inicial. E quem quiser, ganhe a vaga no sorteio ou pague, às ocultas, pela melhor. Os outros que se lixem!

     Não era uma questão de negociação. O plano estava traçado!

     Falou em segurança, mas o que entende o governo do Estado, do quesito segurança em nossa cidade? Será que ele não sabe onde estão os evadidos das áreas Upepezadas? Se não há aumento de contingente policial em São Gonçalo, como é que oferecem segurança? Não falam em quartel de PM, em Delegacia, em Corpo de Bombeiros, em teatro, museu, escola, restaurante popular, barcas para o Rio, estádio, Metrô...NADA!

     Para São Gonçalo ficam presídios, lixões registrados como aterros, ônibus caros, lotados e morosos, insegurança, postes apagados, criminalidade, doenças e desabrigados. Muitos desabrigados. Desabrigados que esperam uma solução dos governos há anos seguidos. Quem não conhece a história sofrida de todos os que moram – ou moraram - nas áreas que foram alagadas?

     Mal comparando, as pessoas desabrigadas das enchentes foram tratadas com o mesmo descaso que a Praça do Alcântara, que a Fazenda Colubandê, que a área do 3º BI... foram deixadas de lado, sem vez, sem voz, sem poderem se utilizar do próprio direito. Diferentemente das áreas mal utilizadas ou menosprezadas, o ser humano reage ao menosprezo quando percebe oportunidade. Muito mais se vê uma nesga de chance de sair da situação da penúria. E como a fome é má conselheira, porque leva o faminto a se exceder, a falta de habitação, provocada por tantos anos, é má conselheira premeditadamente ao dispor dos que precisam urgentemente habitar.

     Daí surge a segunda situação. Com tanta terra que pode servir para a construção de condomínios mais modestos em São Gonçalo, com tanta possibilidade de se fazer obras nas áreas castigadas, como já fizeram em tantos lugares nesse país – não esqueçam que Cubatão, hoje exemplo, já foi a cidade mais poluída e sofrida deste Brasil – resolvem que o melhor é transformar uma área de significativa importância num lugar que será brevemente esquecido pelas autoridades. Garantem que a comunidade não terá bandidagem, que terá casa de graça, área de lazer, biblioteca pública, saúde e tudo o mais. E quem não tem com o quê se agarrar, se agarra com o que oferecem, mesmo que o CONAR não tenha comprovação do teor da propaganda. Imagine finalmente poder morar. E morar de graça. E morar pertinho de Niterói. É uma esperança eleitoreira, é obvio, mas é a única que lhes deram até agora. E eu tenho solidariedade porque a dor que sofrem é, no mínimo, dilacerante.

     Política cruel que usa as necessidades do povo contra o próprio povo. É por isso que não se deve estudar, não se deve ter cultura, não se deve cultuar os bons exemplos, não se tem acesso a bons livros... bom mesmo é bigui-bródi, violência, perseguição midiática à polícia que atua, SUS que não atende, escolas que aprovam de qualquer maneira, direitos interpretados unilateralmente pelo caos social. No fundo são as constatações de Maquiavel em pele já surrada de cordeiro.


     Mas como o “Mestre dos mestres” orientou a vigiar e orar, vou fazendo ambos, esperando a resposta ao chamamento que, há muito, Castro Alves formulou.

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